sábado, 12 de setembro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Sobre chuvas, lixo e descaso
Meu cigarro é testemunha de que eu não pretendia falar sobre política aqui neste espaço, mas é inevitável. Diria que é mais forte do que eu... Mas asseguro que tem a ver com a “fumaça” (rs).
Pois bem. O que se viu em São Paulo nesta semana – principalmente na última terça-feira, quando a cidade praticamente parou em decorrências das fortes chuvas – não foi apenas uma resposta da natureza a um modelo (modelo?) urbanístico equivocado que, para viabilizar um sistema viário igualmente equivocado (que prioriza o automóvel, em detrimento do transporte público), contribui para a crescente impermeabilização do solo. Foi isso também, é claro. Mas não só.
O que se viu nesta semana em São Paulo foi obra, principalmente, do descaso do poder público – o que, em se tratando de uma prefeitura administrada por Gilberto Kassab, não surpreende.
Para fazer “caixa” (sabe-se lá com que propósito), a prefeitura contingenciou os recursos destinados às obras contra enchentes, como revelam os dados da execução orçamentária do município (dos R$ 18,5 milhões previstos no Orçamento de 2009 para a construção de novos piscinões e reservatórios de águas das chuvas, o prefeito Gilberto Kassab, do DEM, congelou R$ 17,1 milhões, empenhando até agora apenas R$ 1,3 milhão – ou 7,3% da verba prevista).
Como se isso não bastasse, há cerca de dois meses Kassab reduziu em 20% os recursos destinados à varrição e coleta, o que resultou em um aumento significativo de lixo nas ruas da capital.
O resultado desse descaso pôde ser conferido na última terça-feira. Com as ruas e rios entupidos por toneladas de lixo, a água das chuvas – sem ter para onde escoar – provocou dezenas de pontos de alagamento.
É evidente que, ao jogar lixo nas ruas, a população contribui para o problema das enchentes. Mas, falta de educação e civilidade à parte, há que se considerar o fato de que, muitas vezes, joga-se lixo nas ruas porque não há lixeiras e caçambas suficientes para o depósito de resíduos. Suficiente, aliás, é modo de dizer, porque, em muitas regiões da cidade, simplesmente não existem lixeiras. E, quando existem, ora estão depredadas, ora estão transbordando de lixo – sem que ninguém se digne a recolhê-lo.
Detalhe: não estou falando da periferia (onde, certamente, a situação é muito pior), mas sim de bairros da região central, muitos deles considerados “nobres”, como os Jardins. Do centro velho, onde está sediada a Prefeitura; da Avenida Paulista, um dos cartões postais de São Paulo... Não faz muito tempo, foram colocadas lixeiras de concreto ao longo da avenida, mas o lixo nem sempre é recolhido. Muitas vezes – como já presenciei em pontos diversos da Paulista –, o funcionário da limpeza substitui o saco plástico das lixeiras, mas não remove o lixo da avenida: o saco repleto de resíduos permanece ali, próximo da guia, por várias horas, até ser recolhido pelo caminhão. Quando vejo isso, torço para não chover, porque, se chover, o estrago é inevitável: o saco se abre, entupindo os bueiros de lixo!
Como eu me recuso a jogar lixo nas ruas, coloco meus resíduos – como lenços de papel usados e embalagens em geral – na bolsa e, se não encontro uma lixeira, levo tudo para casa. Mas o que fazer com a quimba do cigarro? Sim, porque em São Paulo, inacreditavelmente, não há cinzeiros públicos (como os observados nas ruas de cidades européias, como Varsóvia, na foto acima).
Quando encontro uma lixeira na rua, eu apago o cigarro no chão e jogo a quimba lá dentro. E quando não encontro (no meu bairro, por exemplo, não há lixeiras nas ruas), jogo onde? Na rua? Mas isso vai contra os meus princípios. Ademais, o mesmo Kassab que reduziu os recursos para os serviços de varrição e coleta de lixo estipulou uma multa de R$ 500 para quem for surpreendido jogando quimba de cigarro nas ruas! Isso numa cidade onde 1) não existem cinzeiros; 2) o número de lixeiras é desproporcional ao tamanho da metrópole; e 3) só é permitido fumar em casa ou ao ar livre...
Se nos é permitido (por enquanto) fumar apenas em casa e nas ruas, o mínimo que podemos exigir é que sejam instalados cinzeiros públicos em toda cidade. Caso contrário, seremos responsabilizados também pelas enchentes de São Paulo.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
O “brasileirinho” de Praga
Não, não me refiro a nenhum garotinho do Brasil perdido na capital tcheca – mas sim ao simpático fantoche da foto ao lado, que, conduzido pelas mãos talentosas do artista de rua, dançava alegremente ao som de “Brasileirinho” na Karluv Most (Ponte Charles), em Praga, enquanto eu passava por lá, a caminho de Staré Mesto.
Um espetáculo, assim como a Karluv Most. Com 520 m de extensão, essa obra gótica teve sua construção iniciada em 1357, por ordem de Carlos 4º, e hoje é um dos símbolos de Praga, ligando as duas partes da cidade por sobre o rio Vltava.
Dos dois lados da Karluv Most há réplicas de estátuas góticas e barrocas com imagens de santos católicos.
Em cada uma das extremidades da ponte há torres de onde se pode vislumbrar o colorido dos telhados e as centenas de agulhas das igrejas de Praga.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Bach na Stephansdom: não tem preço
Por exemplo: a emoção de ouvir “A Paixão Segundo São Mateus”, de Bach, meu compositor erudito favorito, na magnífica “Stephansdom”, ou Catedral de São Estevão, em Viena (na foto ao lado).
Após duas horas de concerto, saí da catedral construída entre 1137 e 1147, em estilo românico-gótico, completamente extasiada!
Na foto abaixo, o túmulo de Bach na “Thomaskirche” (Igreja de São Tomás), em Leipzig, onde eu também ouvi... Bach, naturalmente!
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
My blueberry nights
“Hoje não se pode mais fumar em lugar nenhum”, diz Jeremy (Jude Law) à Katya (Cat Power) no belíssimo “My blueberry nights”, de Wong Kar-Wai.
Tabacaria
“(...) Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando (...)”
Fernando Pessoa, in “Tabacaria”
Metamorfose Ambulante
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo...”
Raul Seixas, in "Metamorfose Ambulante"
domingo, 6 de setembro de 2009
The City of K.
Até onde a metamorfose de uma cidade pode nos levar?
Se a cidade em questão é Praga – cidade onde nasceu e está enterrado Franz Kafka (1883/1924) –, certamente seremos levados ao espaço Hergetova Cihelna, às margens do rio Vltava, sede do Franz Kafka Museum.
E, ao cruzarmos o “K” da entrada, percorreremos os labirintos kafkianos da exposição “The City of K. Franz Kafka e Praga” – um convite à reflexão metafórica da vida e da obra de Kafka. A exposição é composta de duas partes.
A primeira, denominada “Espaço Existencial”, classifica os eventos da vida de Kafka, bem como a influência do ambiente sobre o escritor. A segunda, chamada “Topografia Imaginária”, mostra o modo como o trabalho de Kafka reflete o intrincado processo de transformação da realidade física de Praga e da vida do escritor em uma imagem metafórica.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
O livre exercício da tragada
Com exceção dos Estados Unidos, onde começam a banir o cigarro até mesmo das ruas (vide o exemplo de Los Angeles, em cujos parques é proibido fumar, para não “prejudicar” a saúde das crianças e dos esportistas*), os demais países que adotaram medidas de restrição ao fumo procuraram respeitar – ainda que minimamente – o direito dos fumantes ao livre exercício da tragada. Falo da Europa, naturalmente.
Tome-se o caso da Alemanha, onde o número de fumantes é significativo. No gigantesco aeroporto de Frankfurt, por exemplo, há “ilhas” com cinzeiro e exaustor espalhadas pelos grandes corredores; o espaço é pequeno, reduzidíssimo mesmo, mas suficiente para aplacar a vontade de fumar após doze horas de viagem ou entre uma conexão e outra. Em minha última viagem, apenas passei por Frankfurt, a caminho de Munique; portanto, não sei como está a situação dos fumantes na cidade de Goethe. Mas, a julgar pelo que vi em Munique, Berlin e Leipzig (na foto acima, área externa do Bar Mephisto, na Mädler Passage), o respeito ao fumante nessas cidades da Alemanha é infinitamente superior ao observado em São Paulo.
A começar pelos bares, cafés e restaurantes, que mantêm áreas para fumantes na área externa, como terraços e jardins (com toldos ou não, com paredes laterais ou não... bem diferente daqui, onde só se pode fumar mesmo é na rua). As cervejarias têm seus biegartens – jardins da cerveja –, onde é possível beber e fumar em paz! Não é preciso pedir um cinzeiro. Eles estão por toda parte e, caso você não encontre um em sua mesa, basta acenar para o garçom com o maço de cigarro: ele providencia um rapidinho. A temperatura ambiente tampouco inibe os fumantes; mesmo no frio, os alemães lotam os biegartens, devidamente equipados com aquecedores. Mas o melhor de tudo é que ninguém nos olha feio quando acendemos um cigarro!
Na Áustria (Viena e Salzburg) e na República Tcheca (Praga), os estabelecimentos têm áreas internas para fumantes e não fumantes – como era aqui em São Paulo antes da famigerada lei antifumo (e como prevê, aliás, lei federal). Na Polônia (Varsóvia), alguns bares e restaurantes mantêm áreas separadas para fumantes e não fumantes, mas a maioria não faz qualquer tipo de restrição ao cigarro.
E a Rússia... bem, a Rússia é o paraíso dos fumantes! Com exceção do transporte público (ônibus e metrô), estações de metrô e museus – o que é compreensível, até por uma questão de segurança –, pode-se fumar em todos os lugares, à vontade. E os russos (assim como os alemães, os austríacos, os tchecos e os poloneses) fumam, e muito! E bebem ainda mais, principalmente vodka e cerveja. E, a despeito de todos os excessos, têm uma aparência ótima, bem diferente daqueles americanos obesos, movidos a fast-food!
(*) no país do fast-food e da comida enlatada, onde crianças ainda pequenas trocam o leite por refrigerante, soa quase como uma heresia a preocupação dos governantes com a fumaça dos cigarros nos parques.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Varsóvia, das cinzas às flores
Olhando hoje para Varsóvia, é difícil acreditar que a cidade foi quase toda destruída pelas tropas alemãs na 2ª Guerra Mundial.
Tal qual a fênix, a capital da Polônia ressurgiu das cinzas – linda, colorida e vibrante. A maioria dos prédios destruídos pela guerra, principalmente em Stare Miasto, ou Cidade Velha, foi reconstruída meticulosamente.
Tal qual a fênix, a capital da Polônia ressurgiu das cinzas – linda, colorida e vibrante. A maioria dos prédios destruídos pela guerra, principalmente em Stare Miasto, ou Cidade Velha, foi reconstruída meticulosamente.
Mas as lembranças da guerra ainda estão por toda parte, seja nos monumentos aos mortos, seja nos pequenos "memoriais" construídos a partir dos escombros – onde invariavelmente há uma flor.
O que me leva a pensar que, ao mesmo tempo em que buscam “exorcizar” os fantasmas da guerra, os poloneses querem manter viva a lembrança do terror, com referências explícitas a Hitler, o "patrono do horror". Para que ninguém se esqueça jamais dos crimes que ele perpetrou.
Abaixo, um dos poucos prédios de Varsóvia atingidos pelos bombardeios alemães ainda não reconstruído:


terça-feira, 1 de setembro de 2009
1º de Setembro de 1939: a Alemanha invade a Polônia. Começa a 2ª Guerra Mundial
Há exatos 70 anos, em 1º de setembro de 1939, o ataque alemão à Polônia dava início à Segunda Guerra Mundial, que resultou na morte de mais 50 milhões de pessoas.
Só a Polônia perdeu 6 milhões de cidadãos, sendo metade deles judeus. Durante a ocupação alemã, o país foi usado como base para o genocídio nazista. Na Polônia ficavam Auschwitz, Majdanek, Treblinka e outros campos de concentração construídos para aniquilar os judeus da Europa.
Gueto de Varsóvia
Imediatamente após a ocupação alemã da Polônia, em 1939, os alemães começaram a planejar o isolamento da população judaica de Varsóvia num gueto – criado em outubro do ano seguinte. Em uma área correspondente a pouco mais de 2% do território da cidade, o Gueto de Varsóvia chegou a “abrigar” aproximadamente 380 mil pessoas, ou 30% da população local. Em novembro de 1940, os nazistas construíram um muro ao redor do gueto, segregando completamente os judeus.
Nos três anos de existência do Gueto de Varsóvia, a fome, as doenças e as deportações para campos de extermínio, principalmente o de Treblinka – iniciadas em julho de 1942 –, reduziram a população segregada de 380 mil para 70 mil habitantes.
Revolta
O Gueto de Varsóvia foi palco, em 1943, da primeira insurreição massiva contra a ocupação nazista na Europa – conhecida como o “Levante do Gueto de Varsóvia”.
Até janeiro de 1943, mais de 300 mil judeus já haviam sido deportados e mortos nas câmaras de gás. Em abril de 1943, quando o gueto deveria ser inteiramente evacuado, os habitantes restantes – sem esperança de sobreviver e sem ajuda externa – se rebelaram, numa ação quase suicida. Preferiam morrer lutando em vez de morrer numa câmara de gás. Desesperados, com as poucas armas de que dispunham, eles conseguiram resistir quatro semanas às tropas muito mais fortes da SS de Hitler.
O levante dos judeus do Gueto de Varsóvia terminou no dia 16 de maio de 1943. As forças alemãs esmagaram a revolta e deixaram a área do gueto – e boa parte de Varsóvia – em ruínas.
Fotos do Monumento aos Heróis do Gueto, em Varsóvia
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