quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Referências gastronômicas


Cebulowa z Grzyb, a tradicional (e deliciosa) sopa de cebola polonesa.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Saúde do santo ou moral do demônio?



Artigo da psicanalista Patricia Porchat*, publicado na edição de outubro da revista Mente & Cérebro. Excelente!

Em resposta a alguém que lhe perguntou em certa ocasião qual era o significado simbólico de um charuto, Sigmund Freud respondeu que, às vezes, um charuto é apenas um charuto. Mas podemos acrescentar que, justamente por ser um charuto apenas “às vezes”, há situações em que representa algo distinto. Na mitologia do próprio charuto ele já foi, por exemplo, símbolo do poder, o que, em termos psicanalíticos, pode ser chamado de “símbolo fálico”. Transportando essa questão para os dias de hoje, o que representa o cigarro na recente discussão acerca de sua proibição em locais públicos?

Em agosto entrou em vigor a lei antifumo em São Paulo com a promessa de ser igualmente implantada em outros estados. O argumento principal dos criadores da legislação é que muitos fumantes passivos – aqueles que sofrem os efeitos do fumo por exposição à fumaça do cigarro dos fumantes ativos – desenvolvem câncer de pulmão. Está comprovado o fato de haver um elevado número de mortes por esse motivo.

Uma primeira representação para o cigarro – aquele que mata – pode ser a de uma arma. Podemos usar nossa imaginação e dizer que, antes da lei antifumo, o fumante (ativo) seria, no máximo, acusado de homicídio culposo. Tratava-se de um delito provocado pela falta de cuidado objetivo do agente, imprudência, imperícia ou negligência. No entanto, não há a intenção de matar. Mas agora a coisa mudou.

Com a proibição de fumar para não espalhar sua fumaça-veneno (também podemos atribuir símbolos à fumaça), o cigarro-arma se tornaria a prova de um crime pior: o homicídio doloso. Este consiste na vontade livre e consciente de assassinar alguém. Por isso, a implementação da lei antifumo se faz acompanhar de um sistema de denúncias. O fumante-assassino deve imediatamente ser interceptado para não causar danos a outrem. Mas o cigarro também representa o prazer. O próprio ato de fumar é prazeroso, dizem os fumantes. Acalma a ansiedade para alguns, é estimulante para outros. Também existe o cigarro depois da comida, do café e do sexo, que atua como complemento. Revela um prazer que se prolonga. Reafirma a satisfação obtida, pois tem valor de uma confirmação: “...sim, foi bom para mim”. Para muitos fumantes, acender um cigarro é um ritual em que corpo e espírito se encontram: prazer do corpo e simbolização desse prazer (no espírito) por meio do rito.

Curiosamente, a lei antifumo permite o cigarro em cultos religiosos, mesmo em ambientes fechados, desde que isso faça parte do ritual. Há que perguntar aos praticantes do culto o que o cigarro ou o charuto simbolizam naquele contexto. Afinal, por que seria mais legítimo do que o ritual particular de cada um na vida cotidiana?

Outra curiosidade é a permissão para fumar nas áreas a céu aberto nos estádios de futebol. O cigarro tem aí um poderoso efeito de acalmar a ira e a expectativa dos torcedores. É o “sossega-leão”: funciona como calmante. Mas, se o time querido marcar um gol... também se pode acender um cigarro-prazer e reafirmar a alegria do momento.

Nos ambientes de trabalho, mesmo que existam áreas abertas e jardins, não se pode fumar. Dizem que a fumaça se espalha e atinge os fumantes passivos. Talvez se espalhe de modo diferente, do modo como se propaga no estádio de futebol. A catarse coletiva justificaria o prazer. O trabalho, não. O cigarro-prazer, se fumado no ambiente de trabalho, enfrentaria a lei que parece dar um recado: a nossa sociedade exige produtividade. Onde há trabalho, não deve haver descanso. Mas existe – ou melhor, existia – também o cigarro-escape. Se o cigarro-charuto representa o poder,proibi-lo é uma forma de impedir a recuperação da autoestima. Sentir tensão, pressão ou sofrer humilhação (situações comuns em ambiente de trabalho) exige um recuo emocional, uma espécie de rearmamento. O cigarro-escape era também um cigarro-enfrentamento.
Cabe à União editar normas “gerais” sobre temas ligados à saúde. Estados e municípios editam normas complementares. Independentemente da questão que se coloca sobre a autonomia dos estados e municípios para estabelecer regras mais duras do que aquelas que foram ditadas pela União, devemos atentar para o fato de que alguém legisla sobre nossos corpos e nossos hábitos. “Biopoder” é o termo criado pelo filósofo e historiador francês Michel Foucault (1926-1984), na década de 70, para referir-se à prática dos Estados modernos de desenvolver um número sem igual de técnicas destinadas à subjugação dos corpos e ao controle das populações.

A transformação radical dos comportamentos por meio da abrupta imposição de novas regras não deveria ser exigida sem uma discussão prévia acerca do significado individual e coletivo desses mesmos comportamentos. O que significa o cigarro? O que significa fumar? Não se pode impunemente elencar comportamentos aceitáveis ou inaceitáveis a partir de uma moral do bem e do mal estabelecida com base no que se considera saudável, ou não, exclusivamente do ponto de vista biológico.

O problema que se coloca não é apenas o da luta pela saúde, mas o da maneira pela qual se exerce o poder. Como e em nome do que esse poder é exercido? Fazer proibições em nome da saúde de absolutamente todos é um equívoco denunciado por Foucault. É uma forma extremamente sutil e, por que não dizer, perversa, de instalar o poder. Autoridades da lei antifumo têm dito que o fumante não foi impedido de exercer sua liberdade individual, pois, afinal, ele pode beber, comer, dançar e depois, prazerosamente, fumar... dentro de sua própria casa. Um presidiário pode fazer o mesmo em sua cela. Diríamos que ele está exercendo a sua liberdade individual?

Consideremos a necessidade de evitar que os fumantes passivos desenvolvam sérios problemas pulmonares e venham a falecer. É legítimo buscar a saúde dessas pessoas e intervir de modo a atingir esse objetivo. É igualmente legítimo possibilitar que eles circulem por áreas amplas e não sejam constrangidos a conviver com fumantes. Mas a recíproca é verdadeira. Poderia haver bares, restaurantes, cafés, boates e jardins para um grupo e para outro. Se os “não fumantes” são maioria, que existam mais estabelecimentos e áreas próprias a eles. Caberia aos donos desses lugares optarem por sua clientela. Caberia ao governo criar incentivos para que alguns estabelecimentos garantissem exclusividade para “não fumantes”.

A saúde da moral ficaria assim garantida em vez de querer fazer prevalecer a moral da saúde, em que saudável seria igual a “bom” e “não saudável” equivaleria a “mau”. O risco de a medicina tomar o lugar da Igreja Católica em relação aos preceitos morais foi denunciado há muito tempo. Isso não significa que a própria medicina e mesmo a população tenham se dado conta disso. É fundamental entender que a saúde não compreende apenas o organismo, mas que necessariamente leva em conta a mente que representa, simboliza e dá significado aos fatos do corpo. Essa, sim, é uma percepção saudável de si mesmo e da vida em sociedade. Em tempo: não sou fumante.

(*) Patricia Porchat é psicanalista, doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Paulista (Unip)


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Eternas referências – Pushkin



“O homem que outrora fui, o mesmo ainda serei:
leviano, ardente. Em vão, amigos meus, eu sei,
de mim se espere que eu possa contemplar o belo
sem um tremor secreto, um ansioso anelo.
O amor não me traiu ou torturou bastante ?
Nas citereias redes qual falcão aflante
não me debati já, tantas vezes cativo?
Relapso, porém, a tudo sobrevivo,
e à nova estátua trago a antiga oferenda...”
Alexander Pushkin



“A palavra de um poeta é a essência do seu ser”
“Nunca encontrareis a poesia se não a tiverdes dentro de vós”
“Amar? Para quê? Por um tempo, não vale a pena. E, para sempre, é impossível”




Acima, “estátua” de Pushkin no “Café Literário”, em São Petersburgo. Ao lado e abaixo, fotos da fachada e dos jardins do prédio em São Petersburgo onde Alexander Pushkin morou nos dois últimos anos de sua vida, transformado em museu. No interior do apartamento do grande poeta russo, emocionei-me com seus manuscritos e objetos pessoais – principalmente com a arma usada por Pushkin no duelo que lhe tirou a vida, aos 37 anos de idade, e com a camisa manchada de sangue! Fui às lágrimas. Literalmente.



“Perder a razão é uma coisa terrível. Antes morrer. A um morto consideramos com respeito, rezamos por ele. A morte fá-lo igual a todos. Enquanto um homem privado da sua razão deixou de ser homem.”


“Eugene Onegin”, obra-prima de Pushkin, foi transformada em ópera por  Tchaikovsky (ao lado, túmulo do compositor russo no Monastério Alexander Nevsky)

Pushkin nasceu em 06/06/1799 em Moscou e morreu em 10/02/1837 em São Petersburgo.
 



domingo, 27 de setembro de 2009

Cigarros são sublimes!


Bogart e Bacall

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Sobre o exercício da tolerância



Reproduzo aqui, com destaque, trecho do último comentário de meu amigo P. R. Baptista, não fumante convicto:

“(...) Infelizmente (para os fumantes) os não fumantes, antes passivos, se organizaram e junto com outros ‘minorias’ (mulheres, gays, negros, indígenas, etc.) passaram a cobrar seu espaço, que passa inevitavelmente pela supressão do espaço do fumante. Trata-se de uma tendência que não vejo, neste momento, como se reverter.”

Parafraseando Voltaire, “não estou de acordo com aquilo que dizeis, mas lutarei até o fim para que vos seja possível dizê-lo”.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Eternas referências – Dostoiévski




"A beleza salvará o mundo” (Fiodor Dostoiévski, in “Discurso sobre Pushkin”)



Ao lado, retrato de Dostoiévski pintado por Vasily Perov (acervo da Galeria Tetriakov, em Moscou). Abaixo, entrada do Museu Memorial Dostoiévski, em São Petersburgo, no prédio onde o escritor morou  nos três últimos anos de sua vida.





Abaixo, gabinete de trabalho de Dostoiévski em seu último apartamento de  São Petersburgo, onde ele escreveu “Os Irmãos Karamazovi”. Na parede, à esquerda, uma fotografia da “Madonna”, de Rafael, pintura favorita de Dostoiévski. 






O relógio sobre a mesinha no escritório do escritor “parou” no dia e hora em que Dostoiévski morreu: 8h36 da manhã de 28/01/1881. 










Abaixo, fotos de objetos pessoais e interior do apartamento do escritor.





"Nenhum homem e nenhuma nação podem existir sem uma idéia sublime. E no mundo existe uma única idéia sublime – nomeadamente, a idéia da imortalidade da alma do homem –, pois todas as outras idéias ‘sublimes’ de vida, que dão vida ao homem, são meras derivações desta única idéia.” ("Diário de um Escritor")



“Os criadores e os gênios, no início da sua carreira, quase sempre, e muitas vezes até no fim, sempre foram considerados pela sociedade como uns parvos e uns loucos — é esta uma das observações mais triviais e sabidas” ("O Idiota")




"Realmente, se um dia de fato se descobrisse uma fórmula para todos os nossos desejos e caprichos – isto é, uma explicação do que é que eles dependem, por que leis se regem, como se desenvolvem, a que é que eles ambicionam num caso e noutro e por aí fora, isto é uma fórmula matemática exata – então, muito provavelmente, o homem deixaria imediatamente de sentir desejo. Pois quem aceitaria escolher por regras? Além disso, o ser humano seria imediatamente transformado numa peça de um órgão ou algo do gênero; o que é um homem sem desejos, sem liberdade de desejo e de escolha, senão uma peça num órgão?” ("Memórias do Subsolo")









“Os tempos atuais são tempos de ‘aurea mediocritas’ e de indiferença, de paixão pela ignorância, de preguiça, de incapacidade para o trabalho prático e da necessidade de receber tudo já pronto. Ninguém raciocina, será raro alguém elaborar uma idéia pessoal. (...) Desapareceu por completo uma idéia cimentadora. É como se toda a gente vivesse numa estalagem, preparando-se para fugir amanhã da Rússia. Todos vivem apenas para a sua abastança...” ("O Adolescente")






“Se Deus não existe, tudo é permitido” ("Os Irmãos Karamazovi") 





Ao lado, o túmulo de Dostoiévski no “Alexander Nevsky Monastery”, em São Petersburgo.





Fiódor Dostoiévski nasceu em 11/11/1821, em Moscou, e morreu em 28/01/1821, em São Petersburgo.



Eternas referências



Não viajo (apenas) para conhecer novos lugares. 

Viajo, principalmente, para conhecer lugares onde nasceram, viveram ou morreram - e estão enterrados - pessoas que 'marcaram' a minha vida. Pessoas cujas vida e obra me emocionam e me inspiram... Non, definitivamente minhas viagens não são simples viagens. Ao contrário: são 'viagens' ao encontro de minhas grandes paixões: a Literatura e a Música! 

Em minha última viagem, conheci as cidades onde nasceram, viveram ou morreram os genais Dostoiévski, Tolstói e Pushkin (Moscou e São Petersburgo), Kafka (Praga), Beethoven (Viena), Mozart (Salzburg) e Thomas Mann (Munique). E revisitei a cidade onde moraram Goethe, Schiller, Bach e Mendelssohn (Leipzig). 


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Suspiros por Bach - II

Suspiros por Beethoven - I

Suspiros por Brahms - I

Suspiros por Bach - I

domingo, 20 de setembro de 2009

Adeus, Lenin!



Sentada em um banco na Praça da Revolução, em Moscou, diante da estátua de Karl Marx – esculpida em 200 toneladas de granito, na base da qual está a famosa conclamação "Proletários de todo o mundo, uni-vos!” –, fiquei imaginando como o ideólogo do marxismo e Vladimir Lenin, principal líder da Revolução de 1917 (cujo corpo embalsamado jaz próximo dali, no mausoléu da Praça Vermelha), se sentiriam na Rússia de hoje.  E concluí que a suposta (e provável) reação dos dois iria muito além do sentimento de frustração. Marx e Lenin certamente ficariam surpresos com a voracidade surpreendente com que o capitalismo chegou à Rússia. Como, aliás, eu também fiquei.


Com exceção do Mausoléu de Lenin (foto abaixo, onde infelizmente eu não pude entrar, pois o local estava fechado à visitação pública, em razão dos trabalhos de conservação do corpo) e de estátuas e murais com a imagem do líder da Revolução nas estações de trem e metrô, além de nomes em logradouros públicos, pouca coisa hoje em Moscou e São Petersburgo nos remete à Revolução. É como se ela simplesmente não tivesse existido!




Por outro lado, os sinais do capitalismo estão por toda parte: nas modernas construções, na opulência das lojas de grife e nos carros de luxo – inclusive limousines – que circulam nas largas avenidas de Moscou e São Petersburgo. E, naturalmente, na proliferação de telefones celulares. A exemplo do Brasil, eles estão por toda parte. A diferença é que, na Rússia, eles funcionam até mesmo nos subterrâneos (e bota subterrâneo nisso!) do metrô. Em Moscou, principalmente, andei muito de metrô, inclusive na hora do 'rush', e me surpreendi com o grande números de russos (trabalhadores) falando ao celular dentro dos trens!

Difícil dizer se os russos estão hoje em uma situação melhor do que aquela em que se encontravam durante o regime comunista. É verdade que, em minhas caminhadas por Moscou e São Petersburgo, não encontrei pessoas em situação de miséria (não me lembro de ter visto 'moradores de rua', tão comuns em São Paulo, por exemplo), embora tenha cruzado com uma ou outra "babushka" mendingando nas proximidades das estações do metrô.  Mas, a julgar pelos ostensivos sinais de riqueza exibidos por uma minoria de milionários russos, algo me diz que o fantasma da desigualdade social – tão combatida pela Revolução de 1917 – pode voltar a assombrar a Rússia. Se é que já não assombra!


Na foto ao lado, a GUM (Gosudartsvenny Univarsalny Magazin, ou loja de departamentos do Estado), a imensa galeria que ocupa uma das laterais da Praça Vermelha, em Moscou, onde as prateleiras da era soviética foram substituídas por lojas como Dior e Prada, entre outras grifes mundiais famosas. Abaixo, outros exemplos do capitalismo emergente.







Ao lado, as obras do novo hotel “Rossyia” (não sei se o nome será mesmo esse). O antigo Hotel Rossyia, uma espécie de "caixote" com 2.876 quartos, 5 mil camas, 40 restaurantes e 1 quilômetro de corredores, foi construído em 1967 para acomodar os delegados do Partido Comunista que vinham para encontros no Kremlin, em frente. Foi demolido, como outros 'mastodontes' do centro de Moscou.


Droga nenhuma



“Dedalus é um jovem exemplar. Ele não fuma e não vai a parques de diversão e não flerta e não faz droga nenhuma ou absolutamente nada (...)”

James Joyce, in “O Retrato do Artista Quando Jovem”

sábado, 19 de setembro de 2009

Ser ou ter? Com a palavra, Marx.



“Quanto menos comes, bebes, compras livros, vais ao teatro e ao café, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas desporto etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. ‘És’ menos, mas ‘tens’ mais. Assim todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça.” (Karl Marx)


Ao lado, estátua de Marx na Praça da Revolução, em Moscou